Fortalecimento do Turismo de Base Comunitária no Amapá

Formação e fortalecimento de iniciativas de Turismo de Base Comunitária (TBC) em comunidades dentro ou no entorno de Unidades de Conservação

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Nome completo do(a) representante do projeto

Charly Ribeiro Sanches

E-mail

charly.sanchescj@gmail.com

Nacionalidade

Brasileiro

Gênero

  • Masculino

Data de Nascimento

30051996

Sede da organização (UF)

  • Amapá

Site da organização

https://florestanacionaldoamapa.blogspot.com/ https://www.icmbio.gov.br/portal/visitacao1/unidades-

Mídias sociais da organização

https://www.facebook.com/instituto.mapinguari https://www.instagram.com/imapinguari/

Data em que você iniciou o projeto

12/2018

Estágio do projeto

  • Em crescimento (passaram das primeiras atividades; trabalhando para o próximo nível de expansão)

Elegibilidade I: Você atende a todos os critérios de elegibilidade?

  • Sim, eu tenho mais de 18 anos de idade.
  • Sou brasileira/o ou estrangeira/o residente no Brasil.
  • Tenho atuação direta e comprovada no projeto.
  • Não sou funcionário nem familiar de funcionários da Ashoka e da CTG Brasil.

Elegibilidade II: O projeto inscrito:

  • É um projeto já implementado e posso comprovar nas respostas, fotos e documentações a serem apresentadas nesta inscrição..
  • É um projeto que tem como foco pelo menos dois (2) dos quatro (4) pilares do turismo sustentável (social, cultural, ambiental e econômico) descritos na seção "Escopo e áreas de foco".

Ao se inscrever, você concorda que possamos apresentar seu trabalho nas mídias sociais e outras publicações da Ashoka e CTG Brasil, relacionadas ao Desafio?

  • Sim, eu concordo.

1) Viagem pessoal: qual a história por trás da decisão em iniciar este projeto?

Conheci a região em 2015 e sempre vi, assim como os moradores, potencial turístico na região do Rio Araguari, inserido na Floresta Nacional do Amapá. E enxergo que o turismo transformador para a região é aquele que torna a comunidade protagonista e fortalece os aspectos da cultura e do modo de vida dos moradores. Hoje, acredito no Turismo de Base Comunitária como alternativa econômica sustentável para essas famílias e busco apoiar essa construção, através de oficinas de formação do tema, desde dezembro de 2018. E hoje, vejo que eles também acreditam e necessitam dessa alternativa de fonte de renda. E é isso que me motiva a continuar essa construção coletiva e fortalecimento do Turismo de Base Comunitária no Alto Rio Araguari.

2) O problema: que problema você está ajudando a resolver?

A comunidade do Alto Rio Araguari sempre se utilizou dos recursos da floresta para garantir sua sobrevivência. Até 1989, tinha o garimpo como principal atividade comercial. Com a criação da Floresta Nacional do Amapá, passou a buscar alternativas econômicas compatíveis com a conservação da biodiversidade. O Turismo de Base Comunitária é uma estratégia para garantir a manutenção do seu modo de vida, garantir uma fonte de renda sustentável, assim como consolidar os objetivos da área protegida.

3) Sua solução: como seu projeto responde a esse problema? Compartilhe sua abordagem específica.

Com o fim das atividades de garimpo ilegal na área da Floresta Nacional do Amapá, a comunidade do Alto Araguari precisou encontrar alternativas econômicas para sua manutenção. A atividade econômica precisava ser compatível com os modos de vida da comunidade e com as estratégias de conservação da UC. Dessa forma, o Turismo de Base Comunitária foi uma das soluções propostas para ser trabalhada no território. Para implantação efetiva do TBC a comunidade necessita de capacitação, para que consiga construir sua iniciativa com protagonismo, e conquiste autonomia de gerenciamento da atividade ao longo do tempo. Nossa iniciativa está implementando um processo de formação dos comunitários para fortalecer o TBC no Alto Rio Araguari. Desde 2018 já foram realizadas 11 oficinas, abordando temas como: conceito de TBC, perfil de turistas, atrativos, roteiro, definição e organização de grupos de trabalhos e precificação. Os comunitários formataram 02 roteiros para região (um com 03 e outro com 05 dias). Para 2020 estava previsto, a partir de um planejamento participativo, o início do trabalho de divulgação comercial da iniciativa, assim como diálogo com as empresas locais de turismo para comercialização dos pacotes turísticos. No entanto, a partir da pandemia as ações foram suspensas. A multiplicação dessa iniciativa também precisou ser adiada. Comunidades de outras regiões do Amapá já estão demandando capacitação para implementação do TBC como estratégia de desenvolvimento econômico.

4) Que tal incluir um vídeo sobre sua iniciativa?

Hannah Balieiro, do Instituto Mapinguari, fala mais sobre a iniciativa.

5) Atividades: Destaque as principais atividades que você realiza no dia-a- dia do seu projeto.

Visando o estabelecimento do Turismo na região, parte das atividades estão relacionadas a realização das oficinas. São realizadas revisões bibliográficas, planejamento da metodologia e organização logística. Em seguida, são realizadas oficinas no território, com deslocamento da equipe e dos comunitários. Após cada oficina é realizada a avaliação do encontro e planejamento da próxima atividade. Além disso, há articulação com parceiros para estimular melhorias no projeto, seja atuando nas oficinas ou no apoio à comunidade. Por fim, há um diálogo constante entre a equipe de facilitação e os comunitários, para apoiá-los nas ações decididas nas oficinas e em novas demandas que surgem. Também é realizado o acompanhamento das ações junto às comunidades, apoiando, quando necessário, a viabilização de viagens e outras necessidades. A equipe se torna uma referência para a comunidade sobre o assunto, estando aberta a receber demandas e questionamentos e respondê-las conforme as possibilidades.

6) Inovação: Qual inovação sua iniciativa está desenvolvendo ou adaptando para solucionar problemas na área do turismo? Como se diferencia de outras iniciativas no setor?

O TBC em Unidades de Conservação, como política pública, é uma estratégia para a implementação de atividades econômicas compatíveis com a conservação da biodiversidade. Por se tratar de um tema que está se consolidando, sem receita de bolo e com muitas iniciativas ainda em fase inicial, implementar o TBC em uma comunidade no Amapá é o primeiro grande desafio. Nossa metodologia de formação, com encontros mensais, permite que os comunitários se apropriem dos temas abordados, reforça a confiança e seu engajamento no projeto. Um “Manual do TBC do Alto Rio Araguari” foi construído, de forma participativa, explicitando as regras e práticas dessa iniciativa. O documento vem sendo consolidado a cada nova oficina. A facilitação gráfica é outro aspecto que busca fugir dos formatos cansativos através de um processo visual para cada oficina e para todo o processo. Por se tratar de uma comunidade com pouco acesso aos estudos, permite a inclusão daqueles participantes que possuem quaisquer dificuldades na leitura e escrita. A cada encontro, os comunitários recebem os painéis impressos produzidos na oficina anterior e assim vão construindo uma memória de todo o processo. Outro aspecto inovador foi a utilização de metodologias de arte educação. Elas buscam construir um ambiente mais harmônico entre os participantes, de modo a proporcionar uma abordagem menos conteudista e mais agradável. Assim, buscamos diversificar ainda mais o público atingido, atraindo especialmente os jovens.

7) a) Pilares do Turismo sustentável: Quais dos seguintes pilares do Turismo Sustentável o seu projeto contempla?

  • Social - iniciativas que melhorem a qualidade de vida das comunidades envolvidas, que sejam capazes de contribuir em aspectos da educação, saúde, articulação social, diversidade e atuação das comunidades.  
  • Cultural - iniciativas que valorizem as identidades e culturas locais, a preservação das histórias e os saberes tradicionais.  
  • Ambiental - iniciativas que reduzam o impacto ambiental, que ofereçam soluções de compensação, que cuidem da conservação e do uso de recursos naturais, que se proponham a regenerar áreas degradadas e que promovam educação e sensibilização ambiental.     
  • Econômico - iniciativas que atuem a partir da proposta de desenvolvimento local, que gerem emprego e renda localmente, que valorizem fornecedores locais, que construam parcerias e que fortaleçam redes de produção e serviços junto a outros agentes locais.  

7) b) Pilares do Turismo Sustentável: explique como os pilares que sinalizou na pergunta anterior estão presentes na implementação do seu projeto.

A capacitação permite às comunidades organizar uma atividade econômica construída nos pilares da sustentabilidade. Além disso, pensada como uma atividade econômica complementar, deve se integrar às outras fontes de renda. No rio Araguari, por exemplo, as mulheres utilizam o turismo como mais uma forma de comercializar sua produção de biocosméticos. O protagonismo da comunidade é um das diretrizes da capacitação, visando seu fortalecimento organizacional e gerencial, através da gestão prática de um negócio turístico. No caso da comunidade do Rio Araguari se decidiu coletivamente a forma de distribuição de benefícios e responsabilidades. A comunidade também organizou uma Associação de Mulheres para atuar no turismo e na produção de biocosméticos. O projeto está focado em comunidades relacionadas a Áreas Protegidas, como forma de assessorar a implementação de atividades econômicas com base na natureza, apoiando a gestão dessas áreas. A comunidade do Rio Araguari tinha um histórico de trabalho em pequenos garimpos ilegais, assim o turismo é visto como uma alternativa econômica sustentável para essa população. O TBC também valoriza a cultura local, permitindo aos moradores refletirem sobre seus principais patrimônios culturais e decidir como querem compartilhar com os turistas. Por exemplo, a comunidade do Rio Araguari apresenta aos turistas seu modo de moradia, agricultura, pesca, produção de artesanato e de biocosméticos.

8) Impacto: quais impactos seu projeto causou até agora? Considere impactos internos na estabilidade da sua organização e externos em relação ao pilares do turismo sustentável, utilize dados

Até o momento foram realizadas 11 oficinas de planejamento do TBC no Alto Araguari, com participação média de 18 comunitários em cada e presença total de 60 pessoas, contando parceiros, gestores das UC e interessados. Esses espaços permitiram o estabelecimento de 02 roteiros com a comercialização de duas viagens. Na primeira viagem, receberam indígenas interessados que a vivência ajudasse na discussão similar que está acontecendo nas Terras Indígenas do Oiapoque/AP. Também 03 novas famílias tiveram oportunidade de, pela primeira vez, receber turistas em sua moradia e oferecer serviço de alimentação. Ao vislumbrar o potencial do TBC na região, a Associação de Mulheres da comunidade, que participa das oficinas, estabeleceu o turismo como um de seus objetivos. Além disso, duas empresas de turismo da capital do estado demonstraram interesse na comercialização do roteiro, e seus representantes participaram de oficinas no ano de 2018 e 2020. Atualmente, gestores de UC e empresas de turismo dialogam sobre a possibilidade de apoio e capacitação em outras comunidades do estado, gerando impactos em outras regiões.

9) Estratégias de crescimento: Quais são seus planos para fomentar o crescimento de sua iniciativa?

O atual processo de capacitação está em fase de implementação. As próximas atividades planejadas serão avaliadas a partir de 2021, para que se possa ajustar os protocolos de segurança e prevenção à COVID. Serão realizadas rodadas de negócios com empresas interessadas na comercialização dos roteiros. Os comunitários serão capacitados para produzir conteúdos de comunicação da região. Serão realizadas oficinas de fotografia, vídeo e materiais para mídias digitais. Também haverá uma press trip, convidando a imprensa local para divulgação do roteiro. Em paralelo, buscamos a viabilização de um projeto de divulgação do turismo de natureza no Amapá, para o público do próprio estado, estimulando o mercado interno. Com apoio do SEBRAE, serão realizadas oficinas de qualificação das iniciativas dos comunitários, focando na parte administrativa e financeira. Parceiros, como o ICMBio, já estão em diálogo para apoio na sensibilização e capacitação de comunidades em outras duas regiões do estado.

10) Colaboração: como a sua iniciativa colabora com outros atores (governos, universidades, empresas, associações da sociedade civil) para fazer a diferença? Você realiza alguma parceria?

Esse projeto surgiu dentro da parceria do ICMBio, órgão gestor da Floresta Nacional do Amapá, com a comunidade do Alto Rio Araguari. O ICMBio ainda foi o responsável pelas primeiras ações e por mobilizar os parceiros, como o Instituto Mapinguari, que agora apoia a coordenação do processo, somando esforços e ampliando o escopo do projeto. Além disso, o projeto também visa apoiar a comunidade a fortalecer e criar novas parcerias para protagonizar o turismo no seu território e sensibilizar os parceiros para o TBC, auxiliando no entendimento desse modelo de gestão. Como exemplo, uma das próximas etapas é criar um espaço de diálogo entre a comunidade e as empresas de turismo locais, apoiando na construção de regras e acordos. Por fim, estamos em diálogo constante com entidades relacionadas ao turismo. Por exemplo, apoiamos o SEBRAE no planejamento de um projeto específico para o turismo no estado, que será executado no ano de 2021 e também irá apoiar esse processo de capacitação.

11) Inspirar novos agentes de transformação: você tem influenciado outras organizações e pessoas a se envolverem no seu projeto e/ou a se preocuparem com o Turismo Sustentável? Se sim, como?

O Instituto Mapinguari (ONG socioambiental local) foi uma das principais instituições interessadas na iniciativa. Ainda não possuía em seu escopo o trabalho com TBC, no entanto aceitou entrar na iniciativa para auxiliar na coordenação e captação de recursos para as próximas fases e futura ampliação do projeto. A iniciativa também oportuniza a discussão do TBC em outros órgãos relacionados diretamente ao turismo, em especial o SEBRAE e as Secretarias de Turismo do estado e municípios, já que estas não possuem experiência em TBC. O projeto tem sido um modelo inovador de capacitação para o TBC no Amapá, atraindo atenção e sendo considerada uma iniciativa exitosa. O que explica, por exemplo, o interesse dos indígenas de Oiapoque em participar da viagem teste.

12) a)Quais dos seguintes recursos sua organização obteve até o momento?

  • Suporte de amigos
  • Apoio da família
  • Mentores / conselheiros
  • Prêmios
  • Projetos de apoio. Apoio de parceiros.

12) b) Planejamento Financeiro: como você planeja financiar o seu projeto a curto, médio e longo prazo?

Até o momento, 80% do orçamento foi oferecido pela entidade parceira ICMBio. Esse órgão aportou os recursos para as atividades iniciais e ainda possui recursos para próximas ações básicas do projeto no ano de 2021, a saber: 05 oficinas. Os outros 20% foram providos pelo Instituto Mapinguari e outras entidades a partir do trabalho voluntário de seus componentes. Para o os anos 2021 e 2022, esperamos conseguir recursos para que se realize todas as oficinas, a rodada de negócios e o press trip, a partir da participação do Instituto Mapinguari em editais. O prêmio desse desafio será utilizado para financiar as ações planejadas do projeto e parte da atividade administrativa do próprio Mapinguari no âmbito do projeto. Para o longo prazo, em especial para a implementação da capacitação em outras regiões, esperamos ser financiados por editais e serviços prestados às entidades parceiras da comunidade, como o próprio ICMBio e empresas de turismo.

12) c) Quanto você já investiu no seu projeto para a operação deste ano?

  • Investimento entre R$1.000 e R$10.000

12) d) Qual é o orçamento necessário para o funcionamento do seu projeto durante 1 ano?

  • acima de R$ 50.000

13) Equipe: qual é a atual composição da sua equipe (papéis, qualificação, tempo integral x temporários, etc)? Como essa composição se transformará no futuro do seu projeto?

Atualmente a equipe é composta por integrantes do Instituto Mapinguari e do ICMBio. Pelo Mapinguari, sou coordenador voluntário do projeto, e prestando serviço autônomo como facilitador gráfico. Outros três componentes do Instituto, todos com ensino superior, estão prestando serviço voluntário em tempo parcial. Pelo ICMBio, o principal mediador das oficinas para a comunidade do Alto Rio Araguari é servidor público. A equipe também conta com o apoio de alguns servidores e estagiários de ensino superior. Para o futuro espera-se que haja um fortalecimento da equipe do Mapinguari e uma menor dependência do ICMBio, especialmente para atuação em outras regiões. Assim será efetivada a contratação de um coordenador e assistente, ambos com ensino superior completo. Além da contratação de mediador de oficinas e facilitador gráfico. Para atuação em oficinas com temáticas específicas, como as de comunicação, serão contratados consultores especializados.

14) Diversidade na equipe: descreva a diversidade de sua equipe e inclua informações sobre a distribuição de cargos.

Dentro da equipe, o principal foco relacionado à diversidade é a participação de jovens, em especial no início da carreira socioambiental. O próprio Instituto Mapinguari tem essa perspectiva, já que é formado por lideranças jovens com protagonismo feminino em sua história. O ICMBio também possui preocupação nesse sentido, por isso construiu a parceria com o Mapinguari. Também possui política de estágio de ensino superior e oportunizou que esses estagiários atuarem no processo de capacitação junto à comunidade. As mulheres são um dos público-alvo da iniciativa, uma vez que o TBC também proporciona o empoderamento feminino. Dentro das oficinas e demais ações é mantida preocupação em sempre proporcionar um espaço de acolhimento e igualdade para participação e desenvolvimento de habilidade de forma igualitária entre homens e mulheres.

15) a) Diversidade do público de sua iniciativa: o seu projeto tem como foco específico algum dos seguintes grupos?

  • Comunidade de baixa renda
  • Comunidade rural
  • Comunidade periférica
  • Outra Comunidade Tradicional

15) b) Diversidade de público da iniciativa: Dê exemplos reais de como o seu projeto está conseguindo impactar todos os grupos que você indicou na pergunta anterior.

O processo de capacitação é voltado para populações rurais, periféricas, de baixa renda, do interior do Amapá, em especial as comunidades tradicionais. Nessa primeira experiência estamos trabalhando com a comunidade do Alto Rio Araguari, população tradicional ribeirinha. As próximas comunidades serão dos assentamentos rurais da Perimetral Norte e comunidades tradicionais castanheira da Resex Cajari. O turismo é uma atividade que oportuniza o empoderamento feminino, trazendo renda e trabalho a esse grupo, sendo um foco desse projeto. Atualmente, metade das participantes das oficinas são mulheres. Além disso, no Alto Rio Araguari há um forte protagonismo feminino, simbolizada pela organização criada para gerir a produção de biocosméticos e turismo, a Associação de Mulheres do Alto Rio Araguari - Sementes do Araguari. Outro grupo que o projeto pretende mobilizar são os jovens, já que os resultados ainda são pouco expressivos.

16) Como você soube desse desafio?

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17) ADAPTABILIDADE: Como sua iniciativa contribui para a resiliência socioeconômica e cultural da comunidade em que você atua? Ou seja, como ela ajudou a comunidade a se adaptar em uma situação de crise como a pandemia da covid-19?

O TBC tem como uma de suas diretrizes ser uma atividade econômica complementar, ou seja, não deve substituir as outras já praticadas. Busca tornar as comunidades mais resilientes ao aumentar a diversificação econômica, adicionando mais uma fonte de recursos e diminuindo a dependência de uma atividade exclusiva. A comunidade do Rio Araguari possui um histórico de atividades sustentáveis, sendo as principais a agricultura, pesca e extrativismo. Como exemplo podemos citar a produção de biocosméticos a partir de produtos não madeireiros retirados da floresta (óleos, resinas etc). O turismo é uma nova atividade que vem fortalecer essas existentes, por exemplo, quando esses produtos são comercializados durante os roteiros. Durante a pandemia, por afetar várias atividades econômicas, comunidades com segurança alimentar e uma diversificação econômica foram menos impactadas e conseguiram se manter um pouco mais estáveis durante esse período de decaída econômica. Mesmo o turismo sendo uma dessas atividades mais impactadas, fortaleceu a percepção de que deve ser complementar e estar em sinergia com as outras atividades tradicionais. Ainda assim, na retomada pós pandemia, há uma perspectiva de que a demanda por turismo regional se fortalecerá e o projeto da comunidade tem potencial para crescer, já que está próximo da capital do estado, onde se concentra 70% da população estadual. Além disso, o TBC e o projeto de capacitação vêm proporcionando experiência de gerenciamento de um empreendimento comunitário e os aprendizados adquiridos estão sendo utilizados nas outras atividades. Os comunitários já relatam que melhoraram seu processo de gestão da produção de biocosméticos. Assim o projeto aumenta o empoderamento e autonomia da comunidade para empreender.

18) MUDANÇAS SISTÊMICAS: Você diria que sua atuação gera ou visa a mudança sistêmica? Caso sim, por favor explique.

Acreditamos que o TBC seja uma ferramenta de mudança sistêmica, e dessa forma, nosso projeto também. Podemos dar um exemplo. O TBC tem como eixo central o protagonismo da comunidade. Muitas vezes, as atividades econômicas têm atores externos muito poderosos, o que faz com que se estabeleçam relações desequilibradas que não permitem às comunidades definirem as próprias regras. O empoderamento e a organização comunitária são formas de nivelar essa balança e nosso processo de formação busca apoiar a comunidade do Araguari nesse caminho. Um exemplo é a precificação. Sempre se relatava que decidir o preço era difícil e normalmente o diálogo se dava entre um comunitário isolado e a empresa operadora. Em oficina, o valor foi discutido comunitariamente levando em consideração o benefício para todos, comunitários, empresa e turista. Agora, existe um valor de referência para os serviços turísticos da região. O próximo passo é uma mesa de negócios entre a comunidade e empresas interessadas, com apoio do Sebrae, criando-se, pela primeira vez, um espaço mais igualitário de negociação entre os comunitários e essas empresas. Então o processo de fortalecimento da organização comunitária permitiu com que ela influenciasse os outros elos da cadeia turística e começasse a implementar uma cultura de negociação mais igualitária, com respeito às regras decididas pela comunidade Esse aprendizado já está sendo utilizado em seus outros empreendimentos. E, possivelmente, por ser uma associação que já é referência na região, irá influenciar outras organizações comunitárias para que adotem esse tipo de abordagem. Por fim, como o projeto visa a parceria com entidades que propõem e implementam políticas públicas, como o Sebrae e o ICMBio, espera-se que esses aprendizados sejam compartilhados com esses parceiros e possam gerar mudanças em uma escala estadual e regional. Esse é um exemplo de aprendizado construído durante a capacitação que gera impacto em toda a cadeia turística.

19) TURISMO COMO VETOR DE DESENVOLVIMENTO: Você consegue exemplificar, a partir da sua experiência, como o turismo pode colaborar localmente para um sistema de criação de valor compartilhado?

O TBC é uma ferramenta econômica, de valorização do patrimônio cultural, de fomento ao empoderamento das comunidades e de gestão territorial. Como atividade econômica complementar, ele depende das outras, valorizando-as. Por exemplo, criando mais oportunidades de comercialização e divulgação de produtos, serviços e culturas do território. Assim, impacta positivamente não só as famílias diretamente associadas ao turismo, mas várias outras de forma indireta. Um exemplo é a venda dos produtos da pesca tradicional para alimentação do turista, o que ainda oportunizando que se apresente a cultura alimentar local. Também permite um olhar para fraquezas do território, pois ajuda a perceber onde há dificuldades que devem ser superadas para melhorar o turismo. Em especial, em relação a infraestrutura do território, que além de desafiarem as comunidades no seu dia-a-dia, também afetarão a atividade turística. Em relação ao patrimônio cultural, todo o processo de discussão e formatação do roteiro incentiva sua identificação, valorização e a decisão consciente do que dentro esse patrimônio a comunidade deseja partilhar com o turista e como. O TBC também fortalece a autonomia e gestão das comunidades, pois essa aprende na prática a administração de negócios comunitários. Esse conhecimento não fica apenas na iniciativa, mas atinge outros empreendimentos e negócios comunitários. Por fim, o turismo, implementado de forma participativa e autônoma pelas comunidades, é uma ferramenta de gestão territorial, já que necessita a mobilização interna e dos vários atores desse território, para se fazer uma discussão dos valores e diretrizes de desenvolvimento para essa área. O projeto tem conseguido mobilizar empresas, órgãos do governo e ONG para implementação do TBC e demonstrado sua importância em instituições que nem sempre tem um olhar voltado para os empreendimentos comunitários, como o Sebrae.

20) REPLICABILIDADE: Para você, é possível identificar outros projetos que foram inspiradores para sua iniciativa? Em quais aspectos? E como o seu projeto se preocupa em inspirar outras iniciativas e ser replicado em outros contextos? Há alguma estratégia para viabilizar sua replicação?

O TBC na Amazônia possui experiências exitosas e buscamos inspiração nelas. Por exemplo, na primeira oficina, escolhemos vídeos que contam a experiência da Resex Tapajós-Arapiuns e Flona do Tapajós, no oeste paraense, como introdução ao tema. Uma outra experiência que nos inspirou foi o Instituto Mamirauá. Também vem ganhando importância na gestão das Unidades de Conservação (UC) e utilizamos dois documentos produzidos pelo ICMBio, que compartilham diretrizes e experiências. Inclusive, experiências de algumas UC foram utilizadas como exemplo para ajudar na definição de regras. No entanto, para a construção da formação, nossa maior referência foi a Estação Gabiraba, empresa que desde 2007 atua com TBC e tem parceria com várias comunidades da Amazônia. Ela vem construindo uma metodologia de formação para o TBC, que foi a base para a estrutura da nossa capacitação. Por exemplo, inspirou várias dinâmicas participativas que foram utilizadas nas oficinas. A capacitação tem despertado interesse e demonstrado a importância desse processo para o amadurecimento das comunidades para o turismo. Por exemplo, uma das operadoras de turismo que já tem parceria com a comunidade solicitou que capacitações parecidas sejam realizadas em outras comunidades com as quais trabalha. O projeto também se relaciona com o Mosaico de Áreas Protegidas da Amazônia Oriental, uma plataforma importante para o compartilhamento de projetos exitosos que aliem conservação e economia. Foi nesse espaço que uma ONG indigenista conheceu o projeto e propiciou para indígenas do estado participarem como turistas do roteiro teste, e ajudar na discussão sobre TBC que está ocorrendo nas Terras Indígenas do Oiapoque. Para viabilizar a replicação de nossa metodologia, estamos em contato com parceiros, como o Sebrae e ICMBio, e participando de editais para poder levá-la a outras comunidades.

21) UTILIZAÇÃO DO PRÊMIO - Caso sua inciativa seja uma das três iniciativas selecionadas para receber o prêmio em dinheiro, como pretende investir o valor recebido?

Uma parte será investida em manter a equipe do projeto. O Mapinguari tem se baseado principalmente no trabalho voluntário dos seus integrantes, que então só podem dedicar-se de forma limitada. A outra parte será investida nas ações do projeto em 2021, nas oficinas e em outras atividades como a mesa de negociação e o press trip. Uma pequena parte pode ser utilizada para expandir o projeto para outras comunidades, em composição com outras fontes de recursos que ainda devem ser encontradas.

22) a) TURISMO SUSTENTÁVEL: o que é turismo sustentável para você?

Turismo sustentável é um turismo que tem em seu cerne a preocupação com a relação dos humanos e da sociedade com o seu ambiente. Busca uma relação respeitosa com os aspectos naturais, com as trocas econômicas e com sua inserção na sociedade em seus vários níveis. Dessa forma, deve-se olhar para a história do território em que se insere, as lutas travadas para melhorar a equidade da sociedade e a conservação do ambiente que sustente os seres humanos e não-humanos. De certa forma, esse não é um fim em si, mas um caminho contínuo em que deve-se estar aberto para mudanças que irão acontecer e novas estratégias, adaptando a realidade local que se insere. Por fim, o turismo sustentável deve perceber-se como uma forma de educação para todos os envolvidos - comunidade, funcionários, turistas - em que se aprenda a partir do engajamento nas atividades turísticas a ter ações e posturas condizentes com seus objetivos.

22) b) TURISMO SUSTENTÁVEL: Com base na sua experiência, quais você considera serem os principais desafios para a implementação de iniciativas de turismo sustentável na atualidade? Quais caminhos você vislumbra para superá-los?

Um dos principais desafios é tornar o turismo sustentável o normal nesse segmento econômico. A busca pela sustentabilidade não pode ser interesse de apenas alguns roteiros e polos que trabalham com nichos ou públicos diferenciados. Para isso, a divulgação dos roteiros para um público amplo é o principal caminho. De certa forma, é preciso construir uma cultura local, regional e nacional de turismo sustentável nas várias camadas da sociedade. Outra dificuldade é o apoio a iniciativas em suas fases iniciais. Muitos empreendimentos, nesse momento, ainda não construíram resiliência para lidar com situações em constante mudança. Assim políticas públicas que permitam que essas iniciativas tenham certa estabilidade nesse momento, como apoio financeiro e programas de acesso a conhecimento e estratégias de gestão, são primordiais. Por ser uma questão ampla, complexa e que possui vários aspectos dependendo do contexto local, assumir a sustentabilidade como uma diretriz demanda um olhar amplo sobre o turismo, necessitando um conhecimento transdisciplinar. Dessa forma, há uma armadilha na implementação do turismo sustentável, pois certas ações e estratégias podem ter efetividade, por exemplo, na diminuição de impactos negativos em aspectos ambientais, mas agravar em questões sociais. Assim é necessário uma sociedade em que a discussão pública e democrática esteja forte, construindo diálogo com todos os setores, que respeite valores e conhecimentos diferentes, buscando consensos e consentimentos, para que a sociedade caminhe em direção a sustentabilidade, e o turismo integrado nela.

22) c) TURISMO SUSTENTÁVEL: Quais oportunidades você considera importantes para fortalecer iniciativas de turismo sustentável?

Oportunidades que permitam a ligação entre os empreendimentos e o público consumidor são essenciais. É primordial melhorar a divulgação dos roteiros e polos turísticos que tem a sustentabilidade como eixo. Programas de marketing amplo, articulação para esforços de divulgação compartilhada e políticas públicas de acesso a esses serviços para populações desfavorecidas são formas de fortalecer essas iniciativas. Programas e políticas para gerar estabilidade para essas iniciativas são importantes não só para manutenção desses negócios mas também para que eles possam manter as condições para a sustentabilidade, sem deixar de lado suas diretrizes. Apoios financeiros, sejam de editais ou créditos a juros baixos são oportunidades interessantes. Também apoio no acesso a conhecimentos e tecnologias, através de programas de extensão, podem ajudar a encontrar novas soluções e estratégias. De forma geral, a luta para que a sociedade como um todo discuta e decida por caminhos mais sustentáveis são essenciais, pois assim o turismo sustentável deixa de ser uma discussão de nicho e se tornar um valor compartilhado por toda a população. As pessoas e empreendimentos engajados no turismo sustentável devem encontrar sinergia com outras iniciativas para influenciar o debate público e a adoção de políticas voltadas para a sustentabilidade. Foi nesse debate amplo na sociedade que os valores e diretrizes foram construídos e esse assunto ganhou escala.

Evaluation results

42 evaluations so far

1. IMPACTO: Esta iniciativa demonstra impacto relevante, e com evidências quantitativas e qualitativas?

Com toda certeza. - 76.2%

Sim, há evidências quantitativas e qualitativas de seu impacto na comunidade. - 19%

De forma parcial. - 2.4%

Não, há pouca evidência de resultados de impacto. - 2.4%

Não. - 0%

2. INOVAÇÃO: Esta iniciativa desenvolveu e implementou uma abordagem inovadora?

Com toda certeza. - 54.8%

Sim, tem características inovadoras. - 38.1%

De forma parcial. - 4.8%

Não, há pouca evidência demonstrada. - 2.4%

Não. - 0%

3. PLANEJAMENTO FINANCEIRO E OPERACIONAL: A iniciativa tem como base um modelo de negócio viável e mostra planos realistas de longo prazo para a sustentabilidade financeira?

Com toda certeza. - 52.4%

Sim, a iniciativa tem um bom modelo de negócio. - 33.3%

De forma parcial. - 11.9%

Insuficiente. - 0%

Não. - 2.4%

4. REPLICABILIDADE & CRESCIMENTO: Avalie a escalabilidade da iniciativa. Ela tem potencial de ser replicada em outros contextos sociais, culturais e/ou geográficos?

Com toda certeza. - 61.9%

Sim, a iniciativa demonstra potencial. - 31%

De forma parcial. - 7.1%

Insuficiente. - 0%

Não. - 0%

5. AGENTES DE TRANSFORMAÇÃO: Uma/um agente de transformação social é alguém que se propõem a lidar e encontrar soluções coletivas para o bem de uma comunidade, um grupo, uma localidade. Queremos saber: essa iniciativa ajuda a inspirar e apoiar outras pessoas a se tornarem agentes de transformação em suas comunidades?

Com toda certeza. - 73.8%

Sim, a iniciativa demonstra potencial. - 23.8%

De forma parcial. - 2.4%

Insuficiente. - 0%

Não. - 0%

6. DIVERSIDADE: Esta iniciativa demonstra a inclusão de públicos diversos em sua iniciativa, seja nos parceiros com os quais colabora e/ou na composição de sua equipe?

Com toda certeza. - 66.7%

Sim, a iniciativa demonstra potencial. - 28.6%

De forma parcial. - 4.8%

Insuficiente. - 0%

Não. - 0%

7. AVALIAÇÃO GERAL: De forma geral, você considera que esta iniciativa deve avançar para a próxima fase do Desafio e se tornar um semifinalista?

Sim, com toda a certeza! - 78.6%

Sim, acredito que sim. - 14.3%

Talvez. - 4.8%

Provavelmente não. - 2.4%

Não. - 0%

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Team

Olá Charly e equipe,
O Turismo CO2 Legal – Guardiões do Clima é uma iniciativa que tem como propósito implantar na atividade turística a compensação de emissões de Gases de Efeito Estufa geradas pelo trade turístico e pelos turistas, algo que será cada vez mais necessário para responder à crise climática. Os recursos da compensação financiam um conjunto de ações voltadas à conservação e restauração de florestas, à inclusão socioeconômica de grupos sociais vulneráveis e ao enfrentamento à crise climática.
Após 10 anos testando, avaliando e aprimorando o protótipo nosso próximo passo é replicar a iniciativa para outras regiões do Brasil. Nossa estratégia na replicação é estruturar uma rede de Ongs e instituições interessadas em executar o programa em suas regiões, adaptando-o às realidades locais. Vamos capacitar e assessorar as instituições para que se apropriem do conceito, metodologia e do funcionamento do programa, dando suporte técnico e operacional durante o tempo necessário à sua implantação.
Com a estruturação da Rede Turismo CO2 Legal – Guardiões do Clima existe um potencial enorme para desencadearmos um poderoso movimento no país em prol do clima, das florestas, da agricultura ecológica, do combate à pobreza no meio rural e da vida, gerando mudanças socioambientais sistêmicas e profundas a partir do turismo.
Envolver as iniciativas semifinalistas do Desafio de Inovações em Turismo Sustentável na Rede Turismo CO2 Legal – Guardiões do Clima será algo fantástico para iniciar a replicação. Neste sentido, queremos convidá-los a conhecer a iniciativa com mais propriedade e havendo interesse em participar da Rede entrar em contato através do email salvador@mecenasdavida.org.br ou pelo WhatsApp 73 999646444
https://network.changemakers.com/challenge/turismosustentavel/edicao/turismo-co2-legal-guardioes-do-clima
Gratidão pela escuta e fiquem bem.
Salvador e equipe Mecenas da Vida

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