Poranduba Amazônia - Turismo Sustentável de Base Comunitária no baixo Rio Negro.

Fortalecer o turismo na RDS Rio Negro através do protagonismo comunitário, com foco no desenvolvimento local sustentável.

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Nome completo do(a) representante do projeto

BRUNO BENNDORF MANGOLINI

E-mail

bruno@poranduba.org

Nacionalidade

Brasileiro.

Gênero

  • Masculino

Data de Nascimento

12061985

Sede da organização (UF)

  • Amazonas

Site da organização

www.poranduba.org

Mídias sociais da organização

Insta: @Poranduba_Amazônia FB: Poranduba Amazônia

Data em que você iniciou o projeto

08/2019

Estágio do projeto

  • Em crescimento (passaram das primeiras atividades; trabalhando para o próximo nível de expansão)

Elegibilidade I: Você atende a todos os critérios de elegibilidade?

  • Sim, eu tenho mais de 18 anos de idade.
  • Sou brasileira/o ou estrangeira/o residente no Brasil.
  • Tenho atuação direta e comprovada no projeto.
  • Não sou funcionário nem familiar de funcionários da Ashoka e da CTG Brasil.

Elegibilidade II: O projeto inscrito:

  • É um projeto já implementado e posso comprovar nas respostas, fotos e documentações a serem apresentadas nesta inscrição..
  • É um projeto que tem como foco pelo menos dois (2) dos quatro (4) pilares do turismo sustentável (social, cultural, ambiental e econômico) descritos na seção "Escopo e áreas de foco".

Ao se inscrever, você concorda que possamos apresentar seu trabalho nas mídias sociais e outras publicações da Ashoka e CTG Brasil, relacionadas ao Desafio?

  • Sim, eu concordo.

1) Viagem pessoal: qual a história por trás da decisão em iniciar este projeto?

Sempre sonhei com um mundo com mais justiça social. Desde minha atuação como psicólogo nas periferias de São Paulo senti que precisava fazer alguma coisa com respeito a isso. Em 2018 fui com minha companheira morar em uma pequena comunidade ribeirinha no Amazonas, o Tumbira, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Negro em busca de uma vida mais sustentável e conectada à natureza. As comunidades da região já tentavam trabalhar com turismo, apontado pelo Plano Gestor da RDS como uma potente alternativa de renda, além de aliada à conservação da natureza. Porém elas enfrentam dificuldades, por diversos fatores. Em 2019 participei de um curso sobre engajamento comunitário e sustentabilidade, quando a comunidade vizinha manifestou a vontade de receber mais visitantes. Eu sabia que poderia contribuir, mas não queria me intrometer no negócio dos outros. O pedido deles fez com que eu me sentisse autorizado a colaborar.

2) O problema: que problema você está ajudando a resolver?

A baixa geração de renda em comunidades tradicionais é um problema que, além de aumentar a pressão por desmatamento, está associado à maior vulnerabilidade social. O turismo pode melhorar este cenário, mas atualmente o fluxo de visitantes é insuficiente, o que desestimula o protagonismo e engajamento comunitário. As poucas agências externas que trazem visitantes não possuem uma visão sistêmica da realidade local, o que limita o impacto positivo do turismo.

3) Sua solução: como seu projeto responde a esse problema? Compartilhe sua abordagem específica.

A Poranduba é uma agência de turismo criada por moradores da comunidade, que realmente defende os interesses comunitários e possui um projeto de desenvolvimento local. Dessa forma, fugimos da lógica de agentes externos ficarem com a maior parte dos benefícios econômicos e podemos maximizar o impacto do turismo. Sabemos que para de fato transformarmos a realidade local, é necessário haver um sentimento de pertencimento por parte das pessoas. Por isso, atuamos de forma democrática e transparente, convidando à participação. Por estarmos dentro da comunidade, conhecemos como ninguém os problemas locais e podemos coletivamente buscar alternativas para superá-los. Temos o compromisso de envolver o maior número de pessoas interessadas, pois sabemos das dificuldades que as famílias passam e acreditamos que uma comunidade só é um bom lugar para se viver quando todas as famílias possuem condições de se manter. Nosso projeto busca instrumentalizar cada vez mais os moradores a exercerem funções ligadas ao turismo e ser a principal fonte de renda das famílias. Já conseguimos aumentar consideravelmente os valores pagos para guias, pousadas e alimentação. Temos sempre prestado contas e discutido coletivamente os valores justos a serem pagos por cada serviço. Pretendemos realizar oficinas que promovam práticas sustentáveis, direcionadas principalmente aos jovens, que resultaria em uma atividade concreta, liderada pelos jovens e incluída na programação turística.

4) Que tal incluir um vídeo sobre sua iniciativa?

Somos um negócio pequeno, em fase inicial que com pouco tempo de atuação já tem um resultado relevante e que tem um enorme potencial de crescimento para impactar diretamente a região do Baixo Rio Negro. A região, por possuir cenários deslumbrantes, riqueza cultural, uma boa estrutura de hospitalidade e ter um bom equilíbrio entre acessibilidade e isolamento é altamente atrativa a visitantes. O que queremos é que esse potencial seja bem aproveitado e beneficie muitos.

5) Atividades: Destaque as principais atividades que você realiza no dia-a- dia do seu projeto.

Cotidianamente eu me dedico a gerar conteúdo sobre os atrativos de nossa região; fazer reuniões com os demais comunitários para definirmos datas, pacotes, valores e funções; desenvolvo material de divulgação para feriados; faço o contato e a comercialização com clientes que buscam informações; busco parcerias que possam auxiliar no desenvolvimento do negócio; visito os lugares e faço as atividades que estão em nossos pacotes; acompanho os grupos de visitantes; participo de reuniões de um coletivo de turismo responsável; faço pesquisas sobre as tendências do mercado; me informo e divulgo sobre a implementação dos procedimentos de segurança, especialmente agora com a Covid-19.

6) Inovação: Qual inovação sua iniciativa está desenvolvendo ou adaptando para solucionar problemas na área do turismo? Como se diferencia de outras iniciativas no setor?

A Poranduba possui uma condição bastante especial: foi criada dentro da comunidade, para atender o interesse da comunidade, mas conta com a bagagem de quem já teve muita experiência como viajante e conhece o mercado de turismo. Por vivermos na comunidade, temos muito mais condição de manter um diálogo aberto, democrático e convidativo, num esforço de envolver os diferentes atores locais, pensando em como cada um pode contribuir com seu saber ou habilidade específica e assim fazer parte da cadeia do turismo. Implantamos uma taxa de contribuição dos visitantes para um Fundo de Desenvolvimento Comunitário, que visa financiar melhorias locais, decididas coletivamente. Temos clareza que o objetivo do TBC não é apenas o desenvolvimento econômico, mas a qualidade de vida dos comunitários, que passa necessariamente pela questão da sustentabilidade. Os jovens são fundamentais no processo de transformação da realidade, e queremos focar em ações que os envolvam em práticas sustentáveis ligadas à gestão de resíduos, saneamento e agroecologia, formando-os para desempenharem uma atividade turística remunerada dentro de nossa programação, além de manter o grupo de jovens realizando a atividades quando não houver visitantes. Essa é uma forma de incorporar práticas sustentáveis no dia a dia da comunidade e utilizar o turismo como catalisador da transformação, formando um círculo virtuoso onde turismo promove sustentabilidade que promove mais turismo.

7) a) Pilares do Turismo sustentável: Quais dos seguintes pilares do Turismo Sustentável o seu projeto contempla?

  • Social - iniciativas que melhorem a qualidade de vida das comunidades envolvidas, que sejam capazes de contribuir em aspectos da educação, saúde, articulação social, diversidade e atuação das comunidades.  
  • Cultural - iniciativas que valorizem as identidades e culturas locais, a preservação das histórias e os saberes tradicionais.  
  • Ambiental - iniciativas que reduzam o impacto ambiental, que ofereçam soluções de compensação, que cuidem da conservação e do uso de recursos naturais, que se proponham a regenerar áreas degradadas e que promovam educação e sensibilização ambiental.     
  • Econômico - iniciativas que atuem a partir da proposta de desenvolvimento local, que gerem emprego e renda localmente, que valorizem fornecedores locais, que construam parcerias e que fortaleçam redes de produção e serviços junto a outros agentes locais.  

7) b) Pilares do Turismo Sustentável: explique como os pilares que sinalizou na pergunta anterior estão presentes na implementação do seu projeto.

SOCIAL: a melhoria na qualidade de vida das famílias pelo turismo deve ir além do incremento de renda e incluir outros benefícios partilhados. As capacitações técnicas trazem a possibilidade de desenvolvimento pessoal e profissional. O investimento em infraestrutura, com o dinheiro do fundo de desenvolvimento, contribui para o bem-estar da comunidade, beneficiando os moradores. CULTURAL: Os visitantes presenciam atividades cotidianas da cultura ribeirinha. A farinha que é feita em grupo, a pesca artesanal, as refeições típicas da região, a oficina de artesanato e a contação de histórias são momentos em que a comunidade compartilha o que sabe. Já ouvimos muitos depoimentos de como é gratificante ter pessoas de fora querendo aprender. AMBIENTAL: Sustentabilidade ambiental é um interesse central para o público que visita a Amazônia, especialmente uma Reserva. Um guia que apresenta a riqueza da floresta, tem mais interesse em conservá-la. Da mesma forma, queremos que o turismo influencie as famílias da região a adotarem boas práticas de saneamento, gestão de resíduos, manejo do roçado etc, e aproveitar essas práticas sustentáveis na programação turística. ECONÔMICO: O aspecto econômico é fundamental em nosso projeto. O foco é no desenvolvimento da região, empregando pessoas daqui, adquirindo produtos regionais, fomentando o artesanato local e buscando aproveitar os recursos locais ao longo de toda a cadeia produtiva sempre que possível.

8) Impacto: quais impactos seu projeto causou até agora? Considere impactos internos na estabilidade da sua organização e externos em relação ao pilares do turismo sustentável, utilize dados

Desde que começamos, em agosto de 2019, até março de 2020, realizamos 7 pacotes. Conseguimos envolver diretamente 45 pessoas de duas comunidades, distribuindo R$ 6.905 na realização de atividades e R$ 23.910 para alimentação e hospedagem. Uma das pousadas não recebia turistas há muito tempo e não tinha nenhum tipo de apoio para atrair visitantes. Além disso, o fundo de desenvolvimento comunitário conta com R$ 3.438 para ser investido. Em termos qualitativos, percebemos que pessoas da comunidade ficaram animadas com a perspectiva do turismo finalmente poder gerar renda. Outras pessoas estão investindo em novas estruturas e atrativos para receber visitantes. Nossos clientes, em todas as ocasiões, nos deram retornos extremamente positivos em nosso formulário de avaliação e tem indicado nosso projeto para parentes e amigos. Pessoas que vieram uma vez já tem data marcada pare retornar com suas famílias. O impacto ambiental oriundo do turismo é baixo, pois não recebemos muitos visitantes ainda. Os resíduos gerados são separados e o orgânico vai para composteiras. Temos clareza que, quando tivermos mais movimento, precisaremos respeitar a capacidade de carga da comunidade.

9) Estratégias de crescimento: Quais são seus planos para fomentar o crescimento de sua iniciativa?

Precisamos ampliar os investimentos em marketing para termos mais visibilidade no mercado e pretendemos efetivar uma profissional local para realizar a criação de conteúdo das redes sociais. Queremos traçar um calendário para o próximo ano junto com a comunidade e iniciar a divulgação e comercialização dos pacotes com antecedência. Queremos realizar capacitações técnicas, como treinamento para guias, gestão administrativa dos empreendimentos, práticas sustentáveis, segurança ao turista e combate a queimadas. Outro plano é investir em infraestrutura, como a construção de um píer exclusivo para banhistas, área com redes e livros sobre a Amazônia e fortalecer a estrutura das pousadas locais, com canoas adequadas para passeio.

10) Colaboração: como a sua iniciativa colabora com outros atores (governos, universidades, empresas, associações da sociedade civil) para fazer a diferença? Você realiza alguma parceria?

Além da fundamental parceria com as associações de moradores (não formalizadas) das duas comunidades que trabalhamos, a ONG Fundação Amazonas Sustentável é bastante atuante em nossa região. Ela realizou uma série de investimentos no sentido de proporcionar as condições para que as comunidades pudessem iniciar seus empreendimentos na área de turismo. Temos nela um grande parceiro, inclusive para nos auxiliar na articulação com o CETAM, órgão oficial de ensino técnico no Amazonas, para realizarmos algumas capacitações. Temos também a parceria com o Coletivo Muda, que reúne empreendimentos de turismo responsável pelo Brasil, onde conversamos sobre estratégias para se difundir este tipo de turismo. Temos parcerias com algumas agências e temos a intenção de ampliá-las. Outra parceria que pretendemos é com institutos de pesquisa, como o INPA, para aproximar as pesquisas dos visitantes. Outra parceria possível é com escolas, para que possam nos visitar para realizar estudos de campo.

11) Inspirar novos agentes de transformação: você tem influenciado outras organizações e pessoas a se envolverem no seu projeto e/ou a se preocuparem com o Turismo Sustentável? Se sim, como?

A Poranduba influencia dois públicos: os moradores e os visitantes. A comunidade do Inglês possui uma pousada comunitária gerida por mulheres que não vinha sendo utilizada e, a partir de nosso projeto, elas voltaram a se envolver com o turismo. Na comunidade do Tumbira, apenas algumas pessoas se envolviam, e nosso projeto ampliou o alcance e os benefícios. Notamos que há uma mobilização crescente de pessoas que estão se organizando para poderem se envolver de alguma maneira com o turismo. Uma outra comunidade vizinha, que ainda não possui estrutura para receber está construindo um redário e já nos procurou para auxiliar-los na divulgação e organização. Já com os visitantes, buscamos envolve-los, através de livros, informações e mapas, com a causa Amazônica. Estamos elaborando um material informativo sobre a importância do bioma amazônico e das unidades de conservação como a nossa.

12) a)Quais dos seguintes recursos sua organização obteve até o momento?

  • Vendas

12) b) Planejamento Financeiro: como você planeja financiar o seu projeto a curto, médio e longo prazo?

Nosso projeto possui custos fixos baixos e tem se sustentado exclusivamente das vendas de viagens. Por enquanto, todas as vendas foram diretas aos clientes (sem intermediação de agências). Porém, estamos considerando a parceria com agências alinhadas aos nossos princípios, pois isto traria mais movimento, o que para as comunidades é fundamental. O financiamento do nosso projeto será integralmente através das vendas. Para isso, investimento em publicidade é fundamental, já que é através da divulgação do nosso projeto que as pessoas irão adquirir nossos serviços. Temos tido uma presença constante nas redes sociais e iniciamos investimentos com divulgação paga no Google e Facebook (com foco no Instagram, mais utilizado para viagens). Conseguimos contratar a vinda de uma influenciadora digital do segmento de turismo responsável, que virá em setembro. Temos condições de realizar esses pequenos e estratégicos investimentos em publicidade, mas para viabilizar em curto ou médio prazo as capacitações técnicas e as melhorias na infraestrutura, dependemos de financiamento externo. Caso contrário, levaremos mais tempo até termos a verba para tal e provavelmente precisaríamos utilizar a verba do Fundo de Desenvolvimento Comunitário exclusivamente para isso.

12) c) Quanto você já investiu no seu projeto para a operação deste ano?

  • Investimento entre R$10.000 e R$50.000

12) d) Qual é o orçamento necessário para o funcionamento do seu projeto durante 1 ano?

  • entre R$ 10.000 e R$ 50.000

13) Equipe: qual é a atual composição da sua equipe (papéis, qualificação, tempo integral x temporários, etc)? Como essa composição se transformará no futuro do seu projeto?

Apenas eu, Bruno, me dedico integralmente ao projeto, acumulando uma série de funções (vide questão 5). Em agosto de 2020, contratei a Odenilze, uma jovem talentosa da comunidade para auxiliar com a produção de conteúdo para as redes sociais. Minha companheira, Raquel, atua como conselheira e possui formação em administração e vasta experiência em projetos de sustentabilidade na Amazônia. As pessoas da comunidade possuem outras atividades, como carpintaria, pesca, roças, etc. A contratação delas ainda acontece sob demanda, no modelo de diárias de trabalho, conforme necessidade, e buscamos fazer um rodízio entre as pessoas, para dar oportunidade a todos. Com o tempo, eu espero que possamos formar times (ex. Alimentação, Hospedagem, Anfitriões, Guias e Transporte) e criar cargos de gerência para facilitar os processos de gestão e qualidade.

14) Diversidade na equipe: descreva a diversidade de sua equipe e inclua informações sobre a distribuição de cargos.

Eu e minha companheira somos os únicos brancos que vieram “de fora” na comunidade. As pessoas com quem trabalhamos são de várias idades (de 16 a 70), de origem humilde, muitos possuem traços indígenas, mas se reconhecem mesmo como ribeirinhos ou caboclos. Odenilze, a única que foi contratada temporariamente, é uma jovem de 22 anos nascida e criada em comunidade e tem o mesmo perfil dos demais. É importante dizer que o turismo, assim como o trabalho na roça, é uma das poucas atividades econômicas que são também realizadas por mulheres em nossa região, já que a pesca e a extração de madeira são realizadas exclusivamente pelos homens. Fortalecer o turismo é fortalecer a inclusão de mulheres no mercado de trabalho.

15) a) Diversidade do público de sua iniciativa: o seu projeto tem como foco específico algum dos seguintes grupos?

  • Comunidade de baixa renda
  • Comunidade rural
  • Outra Comunidade Tradicional

15) b) Diversidade de público da iniciativa: Dê exemplos reais de como o seu projeto está conseguindo impactar todos os grupos que você indicou na pergunta anterior.

As comunidades que trabalhamos reúnem essas 3 características: são de baixa renda (a maioria das pessoas não possui renda fixa), praticamente todos têm um pedacinho de roça onde plantam (principalmente mandioca) e são considerados como povos ribeirinhos ou caboclos, com tradições específicas. Famílias que preparavam mandioca como forma de subsistência, hoje podem apresentar essa atividade para visitantes, sendo remunerados por isso. Além da renda, dá pra ver o gosto deles em se sentirem valorizados por estarem ensinando uma prática deles para outras pessoas. Isso acontece também na pesca, na condução de trilhas, na culinária, em que os comunitários podem mostrar o que sabem, mostrando o valor do seu conhecimento tradicional. Nosso projeto visa melhorar a qualidade de vida deles, aproveitar a expertise que possuem, manter viva suas tradições e ampliar suas possibilidades de existência.

16) Como você soube desse desafio?

  • Mídia social
  • Recomendado por outras pessoas
  • Contato Ashoka Brasil
  • Indicação de um Fellow Ashoka

17) ADAPTABILIDADE: Como sua iniciativa contribui para a resiliência socioeconômica e cultural da comunidade em que você atua? Ou seja, como ela ajudou a comunidade a se adaptar em uma situação de crise como a pandemia da covid-19?

Nosso projeto contribui para a resiliência socioeconômica e cultural ao contribuir para o desenvolvimento de uma outra fonte de renda, além das tradicionais que a comunidade já possui. Com isso, não estamos apenas gerando renda, mas colaborando com ações afirmativas sobre o valor das tradições e do modo de vida ribeirinho. Especificamente em relação ao COVID-19, as famílias da nossa comunidade foram generosamente contempladas com cestas básicas, o que garantiu a permanência em nossa região, além da maioria ter recebido o auxílio emergencial. Como o turismo é uma das fontes de renda (e não ser a única fonte é sinal de nossa resiliência) apesar de diminuir a renda, a maioria das famílias consegue seu sustento em outra atividade. E foi o que aconteceu aqui, as pessoas passaram a pescar mais, caçar e trabalhar na construção de casas. Nós aproveitamos o tempo para realizar uma melhoria na fossa da escola infantil municipal, que era um buraco a céu aberto. Apoiamos com uma verba para colaborar na compra do material e promovemos um “ajuri”, nosso multirão, para fazermos uma fossa ecológica de evapotranspiração, com um sistema de filtragem natural e as plantas puxam a água que ficaria no solo. Outra coisa que fizemos foi trabalhar para melhorar a oferta de atividades turísticas: uma pousada fez reforma em seus quartos, construímos um abrigo em uma praia que servirá de pernoite para visitantes e organizamos as informações para facilitar a comercialização, além de mantermos contato ativo com clientes através das redes sociais.

18) MUDANÇAS SISTÊMICAS: Você diria que sua atuação gera ou visa a mudança sistêmica? Caso sim, por favor explique.

Antes o paradigma da matriz econômica na região era utilitário e extrativista. A madeira e a pesca eram a fonte de sustento das famílias. Agora a comunidade está vendo que é possível gerar renda através da conservação, mantendo a floresta em pé. Mas isso não é uma mudança simples. Nós moramos na comunidade e já abandonamos uma visão romântica, simplista e ingênua de achar que o natural da comunidade é serem guardiões da floresta. Sabemos que a mudança de comportamento leva tempo, precisa de ações coordenadas e devem focar nos jovens. Acreditamos que o turismo sustentável / responsável possa ser esse catalisador, capaz de dar força a outro modo de se relacionar com a natureza e o meio ambiente, levando em consideração o impacto, cuidando dos resíduos e zelando coletivamente pela conservação. A presença do visitante já é motivo para se preocupar mais com questões que antes eram despercebidas, como a questão de resíduos, saneamento e corte de árvores, e que, se combinada com ações educativas, podem dar consistência a uma mudança real de comportamento. Nós estamos em uma Unidade de Conservação, onde existem ameaças à integridade territorial, com invasões de terras. Um turismo ativo e responsável pode também fazer frente a essa ameaça, inibindo a vinda de invasores ao marcar presença nas diferentes áreas que são visitadas. Outra mudança de paradigma ocorre na ponta do cliente. Fazer uma viagem na Amazônia pode - e deve - ser uma experiência transformadora. O modo de vida simples do ribeirinho, o contato direto com a natureza, as práticas sustentáveis, são capazes de inspirar os visitantes a se envolverem com a causa amazônica e levar esses valores adiante. Uma outra mudança sistêmica reside em não depender de um agente externo, como uma agência, que decide pela comunidade e tem uma relação vertical, que não considera os interesses do coletivo e remunera mal seus “parceiros”. Aqui estamos transformando isso ao colocarmos nós, da comunidade, como protagonistas.

19) TURISMO COMO VETOR DE DESENVOLVIMENTO: Você consegue exemplificar, a partir da sua experiência, como o turismo pode colaborar localmente para um sistema de criação de valor compartilhado?

Desde o início sabemos desse potencial e buscamos que ele se concretize. Fazemos questão de convidar todos para as reuniões visando envolver o máximo possível de pessoas. Enfatizamos a importância de dar a oportunidade de todos se envolverem, se não for possível atuar diretamente, pode ser fornecendo insumos (peixe, farinha), participar em atividades que exijam menos interação, como transporte. E temos conseguido ampliar significativamente os envolvidos e a renda. Remuneramos os mais idosos na atividade de contação de histórias, fizemos oficinas de remédios naturais com senhoras, fizemos oficina de merenda com mulheres que nunca tinham se envolvido com turismo, envolvemos jovens condutores em passeios de canoa e nas trilhas, além de aumentar a diária paga por cada serviço e a diária paga às pousadas. Temos anotado todas as pessoas que se envolveram no projeto e quanto receberam, para sermos justos nas oportunidades oferecidas. Isso é uma construção junto com a comunidade, que participa da discussão sobre os valores justos. Como não visamos apenas o lucro, e sim a distribuição ampla dos benefícios, inclusive financeiro, podemos fazer isso de modo aberto e transparente. Nossa intenção é que, gradativamente, a comunidade possa assumir todas as funções que são necessárias para o negócio se sustentar, inclusive as de gestão. Outra forma de gerar valor é através do estímulo à educação, oferecendo uma possibilidade de inserção profissional a muitas pessoas da comunidade. Um exemplo concreto é que muitos jovens nos pediram para que tivessem aulas de inglês, pois querem estar aptas a interagir com estrangeiros, que já nos visitaram aqui. E esta aula está acontecendo, por enquanto via whatsapp. Além disso, o turismo favorece a comunidade ao se estruturar para receber visitantes: as melhorias físicas podem muitas vezes ser utilizada pelos moradores, ex.: a manutenção da escada de acesso à comunidade, mais lixeiras, local seguro para banho, mais oferta de alimentos.

20) REPLICABILIDADE: Para você, é possível identificar outros projetos que foram inspiradores para sua iniciativa? Em quais aspectos? E como o seu projeto se preocupa em inspirar outras iniciativas e ser replicado em outros contextos? Há alguma estratégia para viabilizar sua replicação?

Sim, outros diversos projetos me inspiraram em minha iniciativa, em diferentes aspectos que desenvolvemos: gestão comunitária do turismo, desenvolvimento de produtos, organização e comunicação com clientes e parceiros e desenvolvimento local. Fazer turismo de base comunitária é uma empreitada única e singular, o que não quer dizer que sua estratégia não possa ser replicada. A gestão comunitária do turismo é um ponto crucial da atividade e é um exemplo disso. Cada comunidade possui um arranjo diferente que precisa ser respeitado. A replicabilidade, nesse caso, não vem a partir de seguir uma receita pronta e fazer da mesma forma que outra iniciativa fez, mas seguir princípios, que entendo que devam ser os pilares de um projeto de TBC. Apesar de vizinhas, as comunidades em que estamos presentes apresentam contextos bem diferentes no que diz respeito ao histórico, à gestão de empreendimentos, organização social, etc. Nosso papel, no momento, é aprender como os princípios em que acreditamos (e aprendemos com outras iniciativas) se aplicam a cada realidade e garantir que as atividades se desenvolvam a partir desses princípios. Ainda é um momento de construção conjunta e artesanal. A partir do aumento do fluxo de atividades, conseguimos extrair as lições aprendidas para então compartilhar como, no nosso caso, esses princípios podem ser aplicados em diferentes territórios e quais os pontos de atenção, sejam eles outras comunidades vizinhas, outras Unidades de conservação ou outros territórios da Amazônia. Já se considerarmos a replicabilidade interna, dentro da comunidade entre as famílias, ela já está acontecendo ativamente. Alguns comunitários passaram a investir em materiais, atrativos e equipamentos para poderem ingressar e se envolverem mais com o turismo, ao ver que outras famílias estão se beneficiando com a atividade. Cada vez mais famílias tem suas canoas mais adequadas, materiais de pesca artesanal, casas de farinha melhoradas, novos lanches para venderem, etc

21) UTILIZAÇÃO DO PRÊMIO - Caso sua inciativa seja uma das três iniciativas selecionadas para receber o prêmio em dinheiro, como pretende investir o valor recebido?

É importante ressaltar que a Poranduba não conta com nenhum apoio financeiro ou técnico de nenhuma instituição por enquanto. Se este prêmio for concedido para nós, será um divisor de águas, capaz de alavancar significativamente o negócio e colaborar diretamente com o desenvolvimento das comunidades em que atuamos. Prevemos a utilização da seguinte forma: 25% para capacitações técnicas; 25% para melhoria de infraestrutura; 25% para comunicação, marketing e parcerias; 25% para capital de giro.

22) a) TURISMO SUSTENTÁVEL: o que é turismo sustentável para você?

Turismo sustentável é uma prática que respeita todas as partes envolvidas em sua realização e busca minimizar os impactos negativos e ampliar os positivos. Isso passa por diminuir a produção de resíduos e dar um destino adequado a eles, ter uma solução de saneamento que não prejudique o solo ou o rio, evitar e otimizar o consumo de combustíveis fósseis. Implica em se privilegiar os produtores e atores locais, valorizando produtos que não possuem uma pegada ambiental elevada, ou seja, que para chegar até você não precisaram degradar tanto o ambiente, seja em sua produção ou transporte. Significa também em se respeitar as condições naturais de regeneração de um espaço: não se pode usar um local a ponto de alterar suas características, ele deve ser conservado para poder continuar existindo. O respeito aos parceiros também é crucial: precisamos de pessoas para sustentar o negócio, e as pessoas precisam se sustentar e se sentirem valorizadas.

22) b) TURISMO SUSTENTÁVEL: Com base na sua experiência, quais você considera serem os principais desafios para a implementação de iniciativas de turismo sustentável na atualidade? Quais caminhos você vislumbra para superá-los?

Eu entendo que o principal desafio é que não temos ainda uma consciência coletiva e de longo prazo. Isso faz com que a maioria não se importe com as consequências de suas ações. Vemos isso na forma de consumir, quando jogamos numa lixeira e não nos importamos para onde vai o que jogamos. É assim quando vamos ao banheiro e coisas ”desaparecem”. É assim quando visamos apenas o lucro, sem se preocupar em diminuir a desigualdade, quando não nos importamos em buscar justiça na divisão de benefícios. É toda uma mentalidade que não é sustentável, pois é imediatista e individual. Entendo que a solução seja, primeiro, a educação. Educação transformadora, que enfatize o pertencimento a uma comunidade, a um planeta, que tenha princípios humanistas. E em paralelo, iniciativas que valorizem isso, que tragam visibilidade a essa questão, que demonstrem a importância do coletivo e do longo prazo, para que esses valores sejam compartilhados e alcancem a parte dos consumidores, que são quem podem forçar a mudança de padrão.

22) c) TURISMO SUSTENTÁVEL: Quais oportunidades você considera importantes para fortalecer iniciativas de turismo sustentável?

Uma oportunidade que considero fundamental para fortalecer o turismo sustentável é a capacitação técnica. Vemos diversas iniciativas bem intencionadas, mas que possuem muitas dificuldades de planejamento e execução do projeto, em várias etapas. Às vezes um curso on-line, que tenha linguagem extremamente simples, pode ajudar, com informações básicas sobre o que é necessário para se iniciar. Outro ponto talvez, ligado à capacitação técnica, seja o aprofundamento da noção de sustentabilidade, pois muitas vezes o termo tem sido banalizado, perdendo sua potência. Outra oportunidade no fortalecimento, que acredito que a Ashoka já faça, mas que talvez possa ser ainda mais elaborado, é a criação de redes, articulando serviços complementares, talvez fazendo parte de uma rede Ashoka de Turismo Sustentável.

Evaluation results

12 evaluations so far

1. IMPACTO: Esta iniciativa demonstra impacto relevante, e com evidências quantitativas e qualitativas?

Com toda certeza. - 41.7%

Sim, há evidências quantitativas e qualitativas de seu impacto na comunidade. - 41.7%

De forma parcial. - 16.7%

Não, há pouca evidência de resultados de impacto. - 0%

Não. - 0%

2. INOVAÇÃO: Esta iniciativa desenvolveu e implementou uma abordagem inovadora?

Com toda certeza. - 15.4%

Sim, tem características inovadoras. - 38.5%

De forma parcial. - 46.2%

Não, há pouca evidência demonstrada. - 0%

Não. - 0%

3. PLANEJAMENTO FINANCEIRO E OPERACIONAL: A iniciativa tem como base um modelo de negócio viável e mostra planos realistas de longo prazo para a sustentabilidade financeira?

Com toda certeza. - 8.3%

Sim, a iniciativa tem um bom modelo de negócio. - 50%

De forma parcial. - 33.3%

Insuficiente. - 0%

Não. - 8.3%

4. REPLICABILIDADE & CRESCIMENTO: Avalie a escalabilidade da iniciativa. Ela tem potencial de ser replicada em outros contextos sociais, culturais e/ou geográficos?

Com toda certeza. - 8.3%

Sim, a iniciativa demonstra potencial. - 75%

De forma parcial. - 8.3%

Insuficiente. - 8.3%

Não. - 0%

5. AGENTES DE TRANSFORMAÇÃO: Uma/um agente de transformação social é alguém que se propõem a lidar e encontrar soluções coletivas para o bem de uma comunidade, um grupo, uma localidade. Queremos saber: essa iniciativa ajuda a inspirar e apoiar outras pessoas a se tornarem agentes de transformação em suas comunidades?

Com toda certeza. - 46.2%

Sim, a iniciativa demonstra potencial. - 38.5%

De forma parcial. - 15.4%

Insuficiente. - 0%

Não. - 0%

6. DIVERSIDADE: Esta iniciativa demonstra a inclusão de públicos diversos em sua iniciativa, seja nos parceiros com os quais colabora e/ou na composição de sua equipe?

Com toda certeza. - 15.4%

Sim, a iniciativa demonstra potencial. - 69.2%

De forma parcial. - 15.4%

Insuficiente. - 0%

Não. - 0%

7. AVALIAÇÃO GERAL: De forma geral, você considera que esta iniciativa deve avançar para a próxima fase do Desafio e se tornar um semifinalista?

Sim, com toda a certeza! - 41.7%

Sim, acredito que sim. - 41.7%

Talvez. - 16.7%

Provavelmente não. - 0%

Não. - 0%

Attachments (1)

Teoria da Mudança Poranduba.pdf

Quadro lógico da estratégia da Poranduba

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Team

Parabéns Bruno e equipe!
Boa sorte e sucesso!

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