Turismo de Experiência por meio do artesanato Caiçara e Quilombola

Um projeto de turismo de experiência sustentável que gera renda, auto estima e integração entre grupos de mulheres artesãs

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Nome completo do(a) representante do projeto

Doriléia de Jesus Alves

E-mail

banarte.associacao@gmail.com

Nacionalidade

Brasileira

Gênero

  • Feminino

Data de Nascimento

12101977

Sede da organização (UF)

  • São Paulo

Site da organização

www.banarte.com.br (em construção)

Mídias sociais da organização

@banartefibra

Data em que você iniciou o projeto

10/2018

Estágio do projeto

  • Em crescimento (passaram das primeiras atividades; trabalhando para o próximo nível de expansão)

Elegibilidade I: Você atende a todos os critérios de elegibilidade?

  • Sim, eu tenho mais de 18 anos de idade.
  • Sou brasileira/o ou estrangeira/o residente no Brasil.
  • Tenho atuação direta e comprovada no projeto.
  • Não sou funcionário nem familiar de funcionários da Ashoka e da CTG Brasil.

Elegibilidade II: O projeto inscrito:

  • É um projeto já implementado e posso comprovar nas respostas, fotos e documentações a serem apresentadas nesta inscrição..
  • É um projeto que tem como foco pelo menos dois (2) dos quatro (4) pilares do turismo sustentável (social, cultural, ambiental e econômico) descritos na seção "Escopo e áreas de foco".

Ao se inscrever, você concorda que possamos apresentar seu trabalho nas mídias sociais e outras publicações da Ashoka e CTG Brasil, relacionadas ao Desafio?

  • Sim, eu concordo.

1) Viagem pessoal: qual a história por trás da decisão em iniciar este projeto?

Léia foi morar em Miracatu por conta de uma doença da mãe e diante da necessidade de criar os filhos, em 2018, assumiu a liderança da Banarte, uma associação com mais de 20 anos que estava em processo de franca desestruturação. No mesmo ano foi implementado um projeto de desenvolvimento do turismo financiado pelo Legado das Águas que dentre as atividades contemplava um famtour com operadores especializados de SP. Consultores apoiaram na estruturação de uma experiência durante a visita à Banarte, mudando a lógica da visitação que era apenas de compras. Assim, as visitas passaram a se iniciar com o aprendizado sobre o tingimento da fibra de bananeira e entendimento sobre os tipos de fibra, depois com a possibilidade de realizar trançados no tear com o apoio de uma artesã e por fim, com a visita a loja e compras. A mudança do formato da experiência somado ao desenvolvimento de roteiros, em parceria com agências, realizado por guia do destino, alavancou a atividade turística na Banarte.

2) O problema: que problema você está ajudando a resolver?

A região do Vale do ribeira possui o IDH (índice de desenvolvimento humano) mais baixo do Estado de SP, e aliado à isso, problemas de infra estruturas básicas, que afetam os moradores daquela região, como oferta de trabalho. Por outro lado a região possui uma extensa área verde, e uma vasta riqueza imaterial, com diversos grupos culturais: indígenas, quilombolas e caiçaras. O projeto ajuda a resolver o problema de falta de renda, baixa auto estima e falta de independência da mulher na sociedade

3) Sua solução: como seu projeto responde a esse problema? Compartilhe sua abordagem específica.

No final de 2019 a Léia foi convidada a apoiar um grupo de artesanato que estava nascendo dentro de um empreendimento privado chamado Estação Itimirim, perto de Miracatu na rodovia Regis Bitencourt. Neste contexto, o projeto envolveria o fortalecimento do turismo de experiência na Banarte e sua expansão para a Estação Itimirim e integração com o Quilombo de Ivaporanduva, onde um grupo de mulheres quilombolas também trabalham o ofício da fibra de bananeira. Seria uma forma de fortalecer a experiência turística da região, por meio do estímulo a cultura local e integração de grupo singulares de artesãs caiçaras e quilombolas. O projeto envolveria a aquisição de teares, eletrodoméstico, máquinas de costura, tecidos e insumos, adaptação de estruturas, capacitações, construção de roteiro conectado por especialista, famtour de experiência com operadores especializados para integração do roteiro com o mercado intermediário, construção de banco de imagens e material promocional digital da experiência. Tais iniciativas poderão prover a estrutura necessária para receber os turistas, além de conectar o roteiro ao mercado intermediário e até mesmo ao mercado final por meio do material promocional. As atividades previstas serão efetivas para resolver o problema descrito. Basta ver o resultado alcançado pela Banarte em 16 meses, que mesmo sem envolver muita estruturação, já iniciou um processo de mudança positiva na vida das mulheres do grupo.

4) Que tal incluir um vídeo sobre sua iniciativa?

Depoimento

5) Atividades: Destaque as principais atividades que você realiza no dia-a- dia do seu projeto.

As atividades principais dos três grupos são direcionados ao artesanato e suas etapas, como: coleta de matéria prima, limpeza e preparo deste material, o fazer manual (tecelagem, trançados, tingimentos), vendas dos produtos, participações em feiras e eventos, recebimento do turista em sua comunidade.

6) Inovação: Qual inovação sua iniciativa está desenvolvendo ou adaptando para solucionar problemas na área do turismo? Como se diferencia de outras iniciativas no setor?

O desenvolvimento de experiências de turismo sustentável em comunidades de artesãs, a manutenção do turismo e os resultados positivos da atividade é uma inovação em si. Os grupos que conseguem desenhar as atividades de maneira integrada e sustentável se diferenciam. No caso específico da Banarte o turismo gerou autoestima para o grupo, que foi estimulado a abrir uma conta no instagram/facebook, participar de mais eventos, reportagens e ter maior visibilidade. Recebendo pessoas que apreciam seu ofício, as artesãs compreenderam o valor do seu trabalho, da sua força interna e da sua história de vida. O processo como um todo gerou resultados financeiros importantes para o grupo que em outubro de 2018 tinha uma remuneração baixa por artesã, cerca de R$ 300,00 e chegou a março de 2020 com uma remuneração construída no valor de cerca de R$ 2.500,00 por artesã. O processo de inovação pelo turismo mudou a forma trabalho e visitação da associação. Foi preciso mostrar a sustentabilidade ambiental de se trabalhar com a fibra de bananeira, a valorização da cultura local, o trabalho delicado e cuidadoso de cada artesã. Além disso, a inovação nos produtos com apoio de designer especializado no material, fortaleceu o processo de venda. Alguns produtos encontrados na banarte são únicos.

7) a) Pilares do Turismo sustentável: Quais dos seguintes pilares do Turismo Sustentável o seu projeto contempla?

  • Social - iniciativas que melhorem a qualidade de vida das comunidades envolvidas, que sejam capazes de contribuir em aspectos da educação, saúde, articulação social, diversidade e atuação das comunidades.  
  • Cultural - iniciativas que valorizem as identidades e culturas locais, a preservação das histórias e os saberes tradicionais.  
  • Ambiental - iniciativas que reduzam o impacto ambiental, que ofereçam soluções de compensação, que cuidem da conservação e do uso de recursos naturais, que se proponham a regenerar áreas degradadas e que promovam educação e sensibilização ambiental.     
  • Econômico - iniciativas que atuem a partir da proposta de desenvolvimento local, que gerem emprego e renda localmente, que valorizem fornecedores locais, que construam parcerias e que fortaleçam redes de produção e serviços junto a outros agentes locais.  

7) b) Pilares do Turismo Sustentável: explique como os pilares que sinalizou na pergunta anterior estão presentes na implementação do seu projeto.

Social - O projeto contribui nas etapas de articulação social, envolvendo mulheres locais, melhorando a qualidade de vida de suas famílias com a renda gerada pelo seu trabalho, contribui para a inclusão de novas integrantes, com processos educativos do seu fazer artesanal, além do estímulo à sua valorização junto à comunidade local Cultural - A região do Vale do Ribeira é formado por indígenas, caiçaras e os quilombolas descendentes de ex-escravos. O projeto apresentado valoriza essas referências e contribui na valorização e identidade dessas culturas locais, estimulando a preservação das histórias e os saberes tradicionais Ambiental - Aliados à natureza, essas comunidades criam sua arte através de insumos naturais provenientes de seu ambiente como folhas, cascas, cipós, fibras naturais, além de utilizar resíduos da agricultura local, como a fibra de bananeira. Tais iniciativas reduzem o impacto ambiental, oferecendo opções à materiais mais naturais, não poluentes, contribuindo assim para a conservação e uso consciente dos recursos naturais oferecidos, além de promover a educação, sensibilização ambiental, aliados à geração de renda dessas comunidades Econômico - O projeto fortalece o desenvolvimento local, aliado ao turismo, essas comunidades terão oportunidade de comunicar sua cultura, fortalecer seus vínculos, além de estimular sua economia, com geração de empregos, estimulando a rede de hotéis e comércio da região, e na construção de parcerias de produção e serviço

8) Impacto: quais impactos seu projeto causou até agora? Considere impactos internos na estabilidade da sua organização e externos em relação ao pilares do turismo sustentável, utilize dados

De outubro de 2018 a março de 2020 a Banarte recebeu cerca de 1.300 turistas, tendo impacto financeiro de cerca de R$ 60.000,00. Em alguns meses a renda gerada pelo turismo foi maior que o faturamento proveniente do acordo entre a Banarte e a Tokstok, seu maior cliente. No mesmo período, a remuneração por artesã subiu de cerca de R$300,00 para cerca de R$ 2.500,00 por mês. "A Banarte estava quase extinta, apenas com o contrato da Tokstok no valor de R$ 1.000,00. Nessa época entramos no projeto do Legado das Águas no projeto de turismo. De lá pra cá a mudança foi muito grande, adquirimos máquina de cartão, entramos nas redes sociais, daí pra frente tivemos contato do design Luciano Pinheiro que nos permitiu inovar nos produtos. A mudança no fluxo de visitação no galpão fez os visitante valorizarem o produto e alavancou as vendas"

9) Estratégias de crescimento: Quais são seus planos para fomentar o crescimento de sua iniciativa?

Melhorar as infraestruturas básicas das Associações Banarte, Ivaporunduva e Itimirim, para melhor receber o turista; Treinamentos de um grupo de artesãs de Ivaporunduva e Itimirim, de forma de imersão, efetuados pela Associação Banarte, para aprendizado das técnicas básicas; Implementação de oficinas: coleta do material (fibra); limpeza; Secagem; Tingimento; Técnicas de trançados; Técnicas de tramas em teares manuais; Confecção de produtos: luminárias, tapetes, bolsas, colares, acessórios em geral, cestos, almofadas. Imersão/oficinas de criação, consolidar a estrutura projetual e auxiliar no fazer artesanal, desenvolver técnicas e produtos com design para agregar valor, estrutura projetual (criar um museu e show room para os grupos), divulgação, capacitação Desenho da experiência turística integrada por consultor especializado, famtour com operadores e agências de ecoturismo e turismo de base comunitária, construção de banco de imagens e material promocional digital

10) Colaboração: como a sua iniciativa colabora com outros atores (governos, universidades, empresas, associações da sociedade civil) para fazer a diferença? Você realiza alguma parceria?

As associações desde sua criação receberam apoios de instituições e órgãos municipais e estaduais. Na sua formação tiveram apoio do CODIVAR (consórcio de Desenvolvimento Intermunicipal do Vale do Ribeira, Universidade de São Paulo e grupos de pesquisadores da Esalq Usp, liderados pela profª. Drª Maria Elisa de Paula Garavello, Sutaco, Sebrae. Hoje recebem apoios esporádicos do Sesc do Vale do Ribeira, algumas ações com as prefeituras municipais de Miracatu. Atualmente o grupo Banarte tem apoio de um designer (um dos integrantes deste projeto) e pesquisador da Universidade de São Paulo, especialista em fibras vegetais e artesanato, para ajudar no desenvolvimento e valorização do artesanato. A Associação Banarte também fazem parte do projeto “dá gosto de ser do Vale” projeto do Sebrae. No quilombo de Ivaporunduva possuem apoio da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) e PAA (Programa de aquisição de alimentos da agricultura familiar), que compram seus produtos agrícolas.

11) Inspirar novos agentes de transformação: você tem influenciado outras organizações e pessoas a se envolverem no seu projeto e/ou a se preocuparem com o Turismo Sustentável? Se sim, como?

Apesar de ser formado por três grupos que trabalham com o artesanato Tradicional e fibras naturais, cada grupo possui alguma atividade de pode complementar a outra. Estes projetos estimulam a comunidade do Vale do Ribeira olhar para o seu fazer artesanal, e ter esperança num futuro melhor através de sua arte local. Este projeto foi influenciado justamente nessas qualidades, e na tentativa de padronizar e estimular a experiência de turismo nos três grupos. Além do caráter multidisciplinar com profissionais de áreas chaves para dar apoio que essas comunidades precisam. Em resumo, a expansão integrada do projeto de turismo de experiência sustentável da Banarte é um estímulo ao desenvolvimento do turismo sustentável no Vale Ribeira

12) a)Quais dos seguintes recursos sua organização obteve até o momento?

  • Suporte de amigos
  • Apoio da família
  • Vendas
  • Mentores / conselheiros
  • vaquinhas virtuais

12) b) Planejamento Financeiro: como você planeja financiar o seu projeto a curto, médio e longo prazo?

No curto prazo, devido à pandemia de coronavirus, o projeto de artesanato da Banarte sofreu grande impacto por não ser possível participar de feiras e receber grupos de turistas. A renda média das artesãs caiu cerca de 52%. Atualmente o projeto está se sustentando com o apoio do auxilio emergencial do governo que significa cerca de 40% da renda por artesã e da venda para a tokstok e encomendas que equivale a cerca de 60% da renda por artesã. No médio e longo prazo e com o apoio do presente projeto, espera-se retomar e alavancar as atividades de turismo. Nesse cenário a participação em eventos e turismo de experiência significaria 60% e a venda para lojas e encomendas equivaleria a 40% da renda das artesãs.

12) c) Quanto você já investiu no seu projeto para a operação deste ano?

  • Investimento entre R$10.000 e R$50.000

12) d) Qual é o orçamento necessário para o funcionamento do seu projeto durante 1 ano?

  • acima de R$ 50.000

13) Equipe: qual é a atual composição da sua equipe (papéis, qualificação, tempo integral x temporários, etc)? Como essa composição se transformará no futuro do seu projeto?

Banarte - 20 artesãs - tempo integral - extração das fibra, tingimento da fibra, confecção das peças, participação em feiras e recepção de turistas. Estação Itimirim- 09 artesãs - tempo integral - extração das fibra, tingimento da fibra, confecção das peças, participação em feiras e recepção de turistas. Quilombo do Ivaporanduva - 40 artesãs - tempo integral - extração das fibra, tingimento da fibra, confecção das peças, participação em feiras e recepção de turistas na área de artesanato. As artesãs continuarão cumprindo seu papel e serão também responsáveis pela compra dos materiais previstos no projeto. Para as capacitações, desenho de experiência em turismo, organização de famtur, banco de imagens e desenho de material gráfico digital serão contratados consultores especializados.

14) Diversidade na equipe: descreva a diversidade de sua equipe e inclua informações sobre a distribuição de cargos.

A equipe é formada por mulheres, negras, quilombolas, de comunidades tradicionais, interoperacional. No caso da Banarte, uma artesã fica responsável por cortar o barbante para todas e tingimento, outra artesã fica responsável por entregar ofícios na prefeitura quando é preciso transporte, outras duas são responsáveis por participar das feiras em Miracatu, a tesoureira fica encarregada de fazer o lançamento das notas e o balanço mensal, a presidente fica responsável pela articulação, vendas, orçamento, manutenção do facebook e instagram. A partir do momento que vão surgindo outras demandas o trabalho vai sendo dividido. Para as rotinas do dia a dia trabalha-se com escala.

15) a) Diversidade do público de sua iniciativa: o seu projeto tem como foco específico algum dos seguintes grupos?

  • Minorias étnicas
  • Comunidade negra
  • Comunidade de baixa renda
  • Comunidade rural
  • Comunidade periférica
  • Comunidade quilombola
  • Outra Comunidade Tradicional

15) b) Diversidade de público da iniciativa: Dê exemplos reais de como o seu projeto está conseguindo impactar todos os grupos que você indicou na pergunta anterior.

Minorias étnicas - Preservação e resgate da cultura e fazeres tradicionais; Comunidade negra - empoderamento e independência da mulher artesã; Comunidade de baixa renda - estímulo da renda local e novos ofícios; Comunidade rural- reaproveitamentos dos insumos da produção local e uso consciente da natureza;Comunidade periférica - educação ambiental e novas oportunidades; Comunidade quilombola - valorização da cultura, resgate histórico cultural, geração de renda; Outra Comunidade Tradicional - Caiçaras: valorização da cultura, resgate histórico cultural, geração de renda;

16) Como você soube desse desafio?

  • Recomendado por outras pessoas

17) ADAPTABILIDADE: Como sua iniciativa contribui para a resiliência socioeconômica e cultural da comunidade em que você atua? Ou seja, como ela ajudou a comunidade a se adaptar em uma situação de crise como a pandemia da covid-19?

O período inicial da pandemia foi muito duro para a Banarte, uma vez que tínhamos grupos marcados para visitação, eventos e feiras previstas para participar e tudo foi cancelado do dia para a noite. Além disso, tivemos dificuldade com os pedidos da TokStok que foram temporariamente interrompidos. Foi um momento de muito suporte, ajuda mútua e resiliência emocional conjunta. Quando uma fraquejava a outra dava apoio. Entendemos que ficar paradas em meio a lamentações não resolveria o nosso problema, fomos positivas e encaramos de frente. Assim, decidimos tomar algumas atitudes, como o pedido do auxílio emergencial do governo federal para todas as associadas, uma vaquinha virtual com entrega de brindes, o fortalecimento da comercialização online, a aceleração do projeto de e-comerce da banarte e a renegociação com a TokStok. Consideramos que a pandemia está tendo algumas fases, a nossa primeira foi de aceitação da mudança, depois adaptação ao que estava posto e por fim a convivência da maneira mais segura possível com a doença até chegar a vacina. Fomos muito desafiadas neste tempo de insegurança e é curioso ver como este processo nos fortaleceu. Nossas vendas online aumentaram assustadoramente, antes da pandemia vendíamos online cerca de R$100,00 a R$200,00 por mês e atualmente estamos vendendo entre R$ 3.500,00 a R$ 4.000,00 por mês . Atualmente estamos negociando um contrato com outra loja do porte da TokStok e isso certamente nos ajudará a ter mais tranquilidade no futuro. Além disso, fizemos uma exportação de produtos para Londres e a ideia é manter a parceira no futuro. Quanto ao turismo, estamos retomando de maneira segura, com pequenos grupos, hora marcada e protocolos de segurança estabelecidos para recebê-los. Tudo isso nos fez ficar mais atentas ao processo de acolhimento, recepção e cuidado com os visitantes. De fato, apesar do cansaço e dos momentos de tensão, estamos mais fortes e seguros da nossa caminhada.

18) MUDANÇAS SISTÊMICAS: Você diria que sua atuação gera ou visa a mudança sistêmica? Caso sim, por favor explique.

Sim. A Banarte é uma associação formada por mulheres com 20 anos de atuação no mercado. Tratam-se de mulheres que estão empenhadas em mostrar sua arte, sua cultura por meio do aproveitamento total de um produto identitário da sua região que era jogado fora como lixo, a fibra de bananeira. Mulheres que estimulam o turismo em um destino que não era visto como turístico e que estão juntamente com outros atores do destino mudando essa realidade. Neste sentido alguns paradigmas foram quebrados: 1) mulheres em sua maioria sem educação formal concluída, em uma sociedade machista (há 20 anos atrás mais machista ainda), trabalhando e dando uma condição de vida melhor para seus filhos. 2) sustentabilidade e economia circular são questões ainda distantes para a sociedade brasileira, mas a Banarte tem colocado em prática, cada dia mais, esses dois pontos, seja através do aproveitamento total do pé de bananeira ou por meio dos tingimentos naturais que imprimem sustentabilidade ao processo de produção. 3) a pandemia mostrou ao mundo o valor do turismo com a perda de mais de 120 milhões de empregos e o grande impacto na economia. O turismo é um setor importante e inclusivo, mas pouco valorizado. A Banarte acredita no turismo sustentável como ferramenta de transformação e desenvolvimento local e está juntamente com outros atores do destino mudando a realidade do turismo em Miracatu. A associação faz parte do Comtur e é um dos atrativos mais visitados da cidade.

19) TURISMO COMO VETOR DE DESENVOLVIMENTO: Você consegue exemplificar, a partir da sua experiência, como o turismo pode colaborar localmente para um sistema de criação de valor compartilhado?

O turismo é uma ferramenta muito potente de transformação positiva e de integração. No nosso caso enxergamos o turismo como um setor gerador de trabalho e renda. Em Miracatu, o grupo de turistas que chega com o guia, visita a Banarte, vai a um restaurante almoçar, visita a aldeia indígena, dorme em um hotel, visita a associação dos bananicultores, faz uma trilha, visita a Serra do Manecão, etc. Um só grupo de visitantes pode impactar a vida de dezenas de pessoas da comunidade. Estamos trabalhando conjuntamente para promover o destino de maneira integrada. O projeto financiado pelo Legado das Águas apoiou na criação de uma marca turística para o destino, a criação da página turística no instagram e facebook @visitemiracatu, criação de um mapa turístico e material promocional digital com os atrativos e equipamentos do município. O turismo chega como mais uma alternativa de desenvolvimento econômico para a cidade e sua comunidade.

20) REPLICABILIDADE: Para você, é possível identificar outros projetos que foram inspiradores para sua iniciativa? Em quais aspectos? E como o seu projeto se preocupa em inspirar outras iniciativas e ser replicado em outros contextos? Há alguma estratégia para viabilizar sua replicação?

Sim. A Estação Itimirim foi inspirada na Banarte e trabalho atualmente na liderança das duas iniciativas. Esse é um caso concreto de replicação da iniciativa. Na Estação Itimirim estamos formando mulheres artesãs que poderão no futuro apoiar a Banarte na comercialização das peças, além de entregar aos seus próprios clientes. A Estação Itimirim pretende ser um Centro Cultural do Vale do Ribeira e congregar outras formas de artes e apresentações culturais. Iniciativas como a Banarte devem ser replicadas, uma vez que tiram as mulheres, mesmo sem educação formal, de um lugar de abnegação e desvalorização. Atividades como esta ampliam a autoestima e geram renda.

21) UTILIZAÇÃO DO PRÊMIO - Caso sua inciativa seja uma das três iniciativas selecionadas para receber o prêmio em dinheiro, como pretende investir o valor recebido?

O valor do prêmio será investido em qualificação dos grupos de artesãos e aproximação das três associações: Banarte, Itimirim e Quilombo do Ivaporanduva com o mercado intermediário do turismo, de modo a estimular a criação de um roteiro integrado e gerar fluxo turístico constante em parceria com agentes e operadores. Além disso, uma parte do recurso será investida em um banco de imagens e na criação de um material promocional para aproximar o público final da nossa iniciativa integrada

22) a) TURISMO SUSTENTÁVEL: o que é turismo sustentável para você?

É um turismo que causa impacto positivo e se preocupa com eventuais impactos negativos, valoriza a cultura e a natureza, respeita a comunidade, seus saberes e fazeres como ativos preponderantes de qualquer experiência.

22) b) TURISMO SUSTENTÁVEL: Com base na sua experiência, quais você considera serem os principais desafios para a implementação de iniciativas de turismo sustentável na atualidade? Quais caminhos você vislumbra para superá-los?

Na minha opinião a sustentabilidade é o caminho não só para o turismo, mas todas as questões do mundo. Temos que entender de uma vez por todas que somos parte da natureza e que existem limites que não devem ser ultrapassados. Atualmente estamos vivendo uma pandemia, talvez porque tenhamos ultrapassado alguns limites, desmatando florestas e nos aproximando de espécies que não tínhamos contato anteriormente. O mesmo acontece com a mudança climática, agimos como se não fosse acontecer. Neste sentido, para mim o maior desafio é conscientizar as pessoas da importância de fazer turismo de maneira responsável, de se preocupar com a comunidade, com a cultura e com a natureza. Acredito que a pandemia pode fortalecer esse senso de respeito mútuo e ajudar no processo, mas o caminho que vislumbro para superar esse desafio é com a construção de uma governança forte no destino, que entende que tipo de turista quer receber e trabalha para a construção de políticas públicas que impõe critérios, restrições e multas para quem não respeitar o destino.

22) c) TURISMO SUSTENTÁVEL: Quais oportunidades você considera importantes para fortalecer iniciativas de turismo sustentável?

O Brasil é um país diverso com ativos muito importantes no mundo, sendo o segundo lugar geral em recursos naturais do estudo de competitividade do Fórum Econômico Mundial. Temos todas as oportunidades de construir as bases para o desenvolvimento de atividades de turismo sustentável, mas para que isso aconteça os atores ligados a atividade turística devem estar unidos e integrados. No nosso caso específico, temos levar essa preocupação para as reuniões de conselho para que juntos possamos fazer de Miracatu um destino sustentável. Nossa preocupação com a sustentabilidade e nossas boas práticas devem ser replicadas no destino. A pandemia ajudou a entender o quanto estamos conectados. Esperamos que nossas ações individuais possam inspirar toda a comunidade.

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Team

Olá equipe Associação Barnarte,
O Turismo CO2 Legal – Guardiões do Clima é uma iniciativa que tem como propósito implantar na atividade turística a compensação de emissões de Gases de Efeito Estufa geradas pelo trade turístico e pelos turistas, algo que será cada vez mais necessário para responder à crise climática. Os recursos da compensação financiam um conjunto de ações voltadas à conservação e restauração de florestas, à inclusão socioeconômica de grupos sociais vulneráveis e ao enfrentamento à crise climática.
Após 10 anos testando, avaliando e aprimorando o protótipo nosso próximo passo é replicar a iniciativa para outras regiões do Brasil. Nossa estratégia na replicação é estruturar uma rede de Ongs e instituições interessadas em executar o programa em suas regiões, adaptando-o às realidades locais. Vamos capacitar e assessorar as instituições para que se apropriem do conceito, metodologia e do funcionamento do programa, dando suporte técnico e operacional durante o tempo necessário à sua implantação.
Com a estruturação da Rede Turismo CO2 Legal – Guardiões do Clima existe um potencial enorme para desencadearmos um poderoso movimento no país em prol do clima, das florestas, da agricultura ecológica, do combate à pobreza no meio rural e da vida, gerando mudanças socioambientais sistêmicas e profundas a partir do turismo.
Envolver as iniciativas semifinalistas do Desafio de Inovações em Turismo Sustentável na Rede Turismo CO2 Legal – Guardiões do Clima será algo fantástico para iniciar a replicação. Neste sentido, queremos convidá-los a conhecer a iniciativa com mais propriedade e havendo interesse em participar da Rede entrar em contato através do email salvador@mecenasdavida.org.br ou pelo WhatsApp 73 999646444
https://network.changemakers.com/challenge/turismosustentavel/edicao/turismo-co2-legal-guardioes-do-clima
Gratidão pela escuta e fiquem bem.
Salvador e equipe Mecenas da Vida

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